O novo projeto do Coletivo DAS FLOR nasceu da intenção de criar um espetáculo na rua a partir da imersão de 13 artistas de diferentes áreas – teatro, dança, circo, música, cinema, fotografia e artes plásticas – no território da  Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre.

O projeto conta com a concepção e encenação de Luciane Panisson acompanhada dos criadores Bebeto Alves, Álvaro Vilaverde, Juliano Barros, Margarida Rache, Marcos Rangel, Ekin, Liége Biasotto, Júlia Rodrigues, Juliane Senna, Gabriela Chultz, Tiago Expinho,  Vitória Monteiro  e  Vini Silva.

O espetáculo resultou da imersão destes artistas no território da Lomba do Pinheiro, de agosto à dezembro deste ano, através de intervenções e uma oficina gratuita de artes integradas, com 25 vagas, voltada para os moradores do bairro.

Através deste processo criativo, o coletivo construiu uma narrativa fragmentada baseada na história e na realidade dos moradores deste bairro. Onde o espectador é inserido em um misto de procissão religiosa e desfile de carnaval, vivenciando ao longo do trajeto de algumas horas, relatos compostos pelo hibridismo de linguagens artísticas. A encenação iniciou, a mesmo tempo, em dois pontos  da Estrada João de Oliveira Remião(Parada 16 e Parada 17) e seguiu pelo Beco da Taquara até o salão da Igreja São Pedro, onde o púbico foi convidado a  desfrutar de uma quermesse.

O Projeto DAS FLOR – Um diálogo Antropofágico com a Lomba do Pinheiro  recebeu o Prêmio Procultura – FAC, Sociedade Civil, que financia sua execução.

 

MANIFESTO DO COLETIVO DAS FLOR – Um Diálogo Antropofágico com a Lomba do Pinheiro

Criado com base no círculo dos sonhos.

 

Olhamos a Lomba do Pinheiro com outros olhos, de uma maneira digna. Nos envolvemos emocionalmente com o lugar. Colocamos nosso trabalho artístico de forma respeitosa e fomos aceitos e valorizados. Nos entregamos, fomos solidários. Estudar a Lomba foi estudarmos a nós mesmos. Sentimos um espaço espiritual. Criamos uma dignidade no deslocamento do espetáculo, fazendo com que ele pertencesse às pessoas. Trabalhamos com pessoas sensíveis, nos sentimos em casa estando aqui. Trabalhamos com novas pessoas e compartilhamos essa sensibilidade, ampliando nosso olhar. Causamos uma mudança como seres humanos. Tivemos uma convivência importante, que nos transformou além do fazer artístico. A gente mudou o espaço e a vida do outro por um momento. Tivemos liberdade de criação, interferimos no trabalho do outro e opinamos com o objetivo de somar.

Deixamos nosso personalismo de lado. Aceitamos o outro e somamos juntos. Fomos além como desafio pessoal. Aceitamos. Nos sentimos em casa, nos sentimos acolhidos, sentimos que somamos.

Enxergamos nossa presença. Investigamos a presença no aqui e agora. Vimos uma oportunidade de realizar um trabalho arqueológico, encontramos raízes, diversidades que vivem na sombra do que é comum. Foi como uma árvore, por dentro e por fora. Do lado de fora teve algo em comum (comunidade), que nos ligou, e dentro teve o que é cada um. Tivemos emoção e alegria, disponibilidade para criar, nos entregamos totalmente. Tivemos cumplicidade de criação, soubemos dizer sim e não, soubemos ouvir. Fomos sinceros e honestos no trabalho. Expandimos um ponto de vista da cidade e das pessoas que estiveram perto de nós.

Deixamos nosso ego de lado para ajudar e ser ajudado.

Percorremos o caminho da generosidade. Fomos generosos conosco e com os outros, com quem já estava e com quem chegou. Fomos propositivos e soubemos escutar. Estivemos nesse lugar, vimos o que ele gerou em nossa vida e na vida de quem trocamos. Tivemos um espaço de criação através do olhar para o eu e para o outro. Nos aproximamos de realidades, estivemos nelas. Exercitamos a coletividade na criação. Tivemos espaço para as descobertas e para os erros. Os erros foram outros caminhos. Escutar foi ser generoso. Formamos uma grande árvore, em que suas raízes envolvem o mundo.

Abdicamos de uma ideia, de uma assinatura, do posicionamento vertical. Entendemos a construção de um produto como algo plural. Nos interessamos pelo imaginário, por aquilo que não éramos capaz de contar, dos sonhos que tivemos para isso e como transformamos isso. Cuidamos de um e do outro. Cuidamos sendo afetados e florescemos juntos. Cuidamos e fomos cuidados. Tivemos responsabilidade e fizemos parte de uma nova história. A história de cada um que esteve aqui. Tratamos com carinho o criativo, o ancião, a criança, o feminino, o masculino. Esse convite nos fez nos sentir mais artistas, nos fez pensar sobre a possibilidade do exercício da humildade, de conhecer o outro.

Fomos privilegiados por estar aqui. Deixamos de lado a identidade que construímos ao longo de anos. Precisávamos não nos sentir aqui, tendo a liberdade de estar como amigo, dentro de um processo criativo que nos levou ao descobrimento. Descobrimos algo que nos proporcionou adquirir em si uma outra pessoa, outra oportunidade. Estivemos aqui não sendo. Nos desafiamos a um contato artístico, nos relacionamos cara a cara como indivíduos criativos e amigos. Nos sentimos parte de um processo criativo, de um desafio pleno.